sábado, 1 de outubro de 2011

À MINHA PORTA



Ao menino que chora 
À minha porta, 
Eu pergunto o que lhe incomoda.
Ele para mim olha. 
Em seu olhar implora, 
Quer um pouco de pão. 
Em seguida estende sua mão 
Com a palma vazia. 
Na verdade, era eu quem pedia 
O seu pleno perdão.
Essa situação, 
Nesse exato momento,
Traz ao meu pensamento, 
Uma reflexão. 
Não há justificação 
Para um ser inocente,
Um pedaço de gente, 
Ter tamanha aflição. 
A não ser, a omissão 
E a indiferença, 
A falta de decência 
E de humanização. 
Outra explicação, 
Juro que não entendo. 
E imploro, temendo 
Que o menino sofrendo, 
Não me dê seu perdão.


JOÃO FELINTO NETO

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

NA LEMBRANÇA


Quanta saudade
Do meu tempo de criança.
Eu dormia com a ânsia
De acordar.
Tinha sempre a esperança
De ao futuro viajar.
Agora, só posso voltar
Em minha lembrança.
Quando penso na distância,
Dá vontade de chorar.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Noturna Agonia



Tinhas tudo aquilo, que me foge o grito
e no peito distende, a última tortura.
Eras rebeldia, e paz no infinito.
Eras de Deus, a perfeita criatura.

Apalpei-te toda procurando um verso,
que agora, ao achar, já não te encontro.
É este, vês? Que te ofereço imerso
em meio às sombras, já me veio pronto.

E tu, onde estás, porque fugistes?
Ou não? Fui eu quem me ausentei agora
do fim que essa ausência eterniza.
Porque não põe em mim os olhos tristes?
Não vês que uma grande lua jaz lá fora
e que o meu verso solitário agoniza?

(Costa Pinto)

domingo, 7 de agosto de 2011

AS FRASES


Eu conheci um poeta
Que como a flor do deserto,
Apesar do tempo incerto,
Teimava em sobreviver.

Admirado em ouvir
Os versos que declamava,
A palavra que encantava.
Não sabia escrever.

Certa manhã, eu fui ter
Na praça cotidiana.
A vista, então, me engana.
O que está a acontecer?

Vi no chão ensangüentado,
Por um auto atropelado,
Um sonho ser extirpado.
No deserto, morre a flor.

Do auto, a placa ficou,
Com frase que enganaria:
“Desse carro, o motorista
É Jesus, o salvador”.
Na camisa do finado
Que se tornou rubra cor,
Estava assim estampado:
“Jesus é meu protetor”.