terça-feira, 20 de março de 2012

LEVIANAMENTE SÓ


Por mais que eu me castre
Da volúpia de minha carne,
Não sou eu mesmo,
É minha parte
Que ainda arde
De desejo.
Por mais que meus apelos
Me afastem
De obscenidades,
Eu anseio
Pela promiscuidade
De meus beijos.
Por mais que eu mantenha em segredo
A excitação que sei de cor,
Eu continuo em mim,
Levianamente só. 

A FARSA


Sou o homem cabisbaixo
Na multidão exaltada.
Quanta gente alienada
Com um mundo imaginário!?
O que será necessário
Para que enxerguem a farsa?
O que pagam pela graça
É um preço muito alto.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

ETILISTA

O que deixo aos meus filhos,
Senão risos
E amigos populares?
Desses que vivem em bares,
Entretidos
Com os seus próprios caprichos,
Entre olhares.
Fazem das mesas altares,
Das tavernas os lugares
Onde não há compromissos. 
Comemoram sem motivos,
Permanecendo esquecidos
Dos seus lares.



JOÃO FELINTO NETO

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Os Céus de Minas Gerais


(“A arte é um resumo da natureza feito pela imaginação”- Stendhal)



Quando recebeu o diploma, olhou-o detidamente, escutando ao longe, ainda vivas na lembrança, as palavras de seu pai:

- Se pretendes ser um artista é melhor dizer adeus à tua realidade.

Esfregou as mãos sobre o papel e abriu os lábios num sorriso meditativo: Pintor paisagista.
O encanto esfuziante das cores da natureza. Comprimiu o canudo sobre o peito e relembrou o verde sonho de criança: Eu quero pintar os céus de Minas Gerais.

O azul lhe brotou dos olhos. As casas antigas salpicavam-lhe as retinas do verde e do branco, atrás das cinzentas nuvens. Horizontes avermelhados e cálidos, derramados sobre o casario de uma cidade do interior.

As muitas experiências com tintas e pincéis sufocaram-lhe as lembranças e o desejo. Eu quero pintar os céus de Minas Gerais.

Com o decorrer dos anos surgiram os salões, as críticas, algumas rugas, duas ou três exposições e uma pequena fama. Aquela viagem pelos céus da Itália.

As telas abriam-se em cores e nuances vibrantes, céus atrás de casas. As ruínas do Coliseu. Os amores retratados sobre os cromos.

A morte do pai lhe trouxe enormes olheiras roxas e mais vermelho aos olhos injetados. Remoeu dois ou três dias um resto de tristeza, um pedaço de borracha de desenho e as palavras do velho.

Levantou os olhos sobre a mesa e os correu pela maçaneta da porta, sobre os quadros na parede, até deixá-los cair sobre a janela aberta da sala. Os céus de Minas Gerais.

A lembrança acentuou o olhar. A decisão chegou-lhe firme ao corpo inerte: abandonia a casa, a família, as ruas, as lembranças antigas mergulhadas nos vidros de verniz para quadros, os papéis de aquarela sobre a secretária empoeirada, a tela por terminar, ainda pendendo no cavalete.

Os tubos de tinta e os pincéis se amontoaram na velha caixa de madeira.

As pontas dos dedos tamborilava, saltitantes pelas bordas da paleta, enquanto as asas do avião esgueiravam-se leves ao contorno das montanhas.

Enfim, os seus negros olhos infantís que hoje já se tornaram azuis, de um azul a cada dia mais intenso, sorriem pela vontade do sonho realizado.

E quem passar pelas ruas da cidade, ainda pode vê-lo pendurado no mais alto andaime do mais alto edifício que possa se avistar, os braços estendidos, a mão segurando firme o pincel, com tinta a cair-lhe pelos olhos, tentando pintar os céus de Minas Gerais.


Costa Pinto


(imagem extraída da página internet: poesia-potiguar.blogspot.com)