sábado, 9 de outubro de 2010

PESCADOR DO LIRISMO

Pescar pensamentos
E transformá-los, ao sabor da alquimia,
Em iguarias da Poesia.

Pescar,
Com astuciosa energia,
A delação contra os matizes
Da miséria, esconsa ou furtiva
E convertê-la em metralhadoras compulsivas
Que cuspam balas de fogo da poesia,
Assassinando a peçonhenta hipocrisia!

Pescar o airoso voo da abelha,
O sorrateiro voo do açor,
O lúgubre voo do corvo,
O termal voo da centelha,
O solitário voo do albatroz,
O imensurável voo da cordilheira,
O insidioso voo da harpia,
O perspicaz voo da megalomaníaca águia faminta,
O dantesco voo do usurário abutre, o aeronáutico perito caçador de carniça,
O perscrutativo voo da coruja, sempre alerta, oportunista,
O garboso voo da garça, discípula da brisa,
O grandiloquente voo do ébano cisne simbolista,
O feérico voo das libélulas-borboletas, velas de chama sucinta,
O hialino voo da gaivota, paladina da libertária utopia
E o thecoviano voo da cotovia,
Comutando-os no cimento, na argamassa, no concreto,
Na viscosa argila, na titânica longarina,
Na onipotente vivenda de alvenaria da Poesia!

Ah,
Tornar exeqüível
A mais idílica das pescarias:
Deslindar,
Ao bel-prazer do incessante fluxo
E refluxo da odisseia dos dias,
Que o elixir da vida
Foi, é e eternamente será
A onipresente e suprema arte cristalina da Poesia!

Ah,
A bem que se diga,
Quero que --- num iminente amanhã qual ao longe,
Inermemente rutila ---
A esperança-lamparina
Faça de meu ser em letargia
Mais um prolífico pescador da Poesia!

JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA

Um comentário:

  1. Vamos comemorar muito a chegada de mais esse excelente e prolífero poeta.

    É certamente gratificante ter aqui esse baiano "porreta", exímio na forma e na profundidade da construção poética.

    E ele ainda diz:

    "A esperança-lamparina
    Faça de meu ser em letargia
    Mais um prolífico pescador da Poesia!"

    Não há mais que fazer, poeta Jessé, já é!

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